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quarta-feira, 20 de maio de 2009

MENTALIDADE ESTATÍSTICA - PARTE 2

A maioria das pessoas não estudou muito estatística, e nem têm grande facilidade para matemática mais complexa. No entanto têm a impressão errada de que são necessários muitos conhecimentos avançados de matemática para entender análises estatísticas. As pessoas nem chegam a considerar entender estatística, por considerá-la acima de suas capacidades de compreensão.

Mas para compreender a maioria das aplicações da estatística, principalmente na mídia, um conhecimento básico é suficiente. Qualquer pessoa pode facilmente adquirir uma “mentalidade estatística”, compreendendo o significado de alguns termos, como média, mediana, moda, desvio-padrão, curva normal, probabilidades, erro padrão da média, erro provável, amplitude total, correlação, universo de amostragem, erros de amostragem, limite de segurança entre outros. Com isso poderá compreender os resultados das estatísticas, mesmo que nunca tenha aprendido a executar qualquer um dos cálculos de estatística.

O livro “How to Lie With Statistics[HUFF, Darrel, How to Lie with Statistics, 1954] (“Como mentir com estatísticas”), Darrel Huff explica conceitos básicos de estatística em um texto leve, curto e agradável de ler, com ilustrações engraçadas. Apresenta muitos exemplos de situações reais em que as estatísticas foram usadas para enganar, confundir, ou simplesmente foram mal feitos ou sofreram de erros comuns, sempre levando a conclusões enganosas ou imprecisas.

Escrito por um jornalista autônomo, que não tinha nenhuma especialização em estatística, este livro é um exemplo de como se pode adquirir uma “mentalidade estatística”, ao mesmo tempo em que não se precisa recorrer a mais do que a álgebra básica e a conceitos fáceis de compreender.

Não é à toa (ou por uma ironia, visto que o autor não é um estatístico) que este livro é considerado o texto sobre estatística mais lido no mundo. Escrito em 1954, mas com temas ainda perfeitamente atuais, o livro já vendeu mais de 1,5 milhões de cópias na sua edição em inglês.

Nele, Huff [HUFF, Darrel, How to Lie with Statistics. New York: W W Norton & Company INC, 1954, pág. 8] afirma: “A linguagem secreta das estatísticas, tão atraente em uma cultura voltada a fatos, é empregada para sensacionalizar, inflar, confundir, e simplificar em excesso. Métodos estatísticos e termos estatísticos são necessários para relatar a massa de dados das tendências sociais e econômicas, condições de negócios, pesquisas de ‘opinião’, e o censo. Mas sem escritores que usem as palavras com honestidade e entendimento e leitores que saibam o que elas significam, o resultado só pode ser um absurdo semântico”.

Mas muitas pessoas não se interessam por estudar estatística, por terem dela um conhecimento intuitivo e que acreditam suficientes. Mas saber como as estatísticas são calculadas nos permite entender o que seus resultados realmente significam e nos permite experimentar uma sensação de posse do que está sendo informado.

segunda-feira, 18 de maio de 2009

MENTALIDADE ESTATÍSTICA - PARTE 1

Compreender as aplicações da análise estatística é um dos conhecimentos mais úteis na Era da Compreensão. São inúmeras as ocasiões em que esta habilidade pode salvar o consumidor de informações de armadilhas, ou evitar que o produtor engane o consumidor por pura ignorância ou falta de atenção. E também é uma habilidade necessária para compreender o mundo a nossa volta e exercer plenamente a nossa cidadania.

Quando eu era criança li que a expectativa de vida média a partir do momento do nascimento durante o Império Romano era de 28 anos; logo, imaginei que as pessoas morriam por volta dessa idade, e me perguntava como era a vida de pessoas que sabiam que iam morrer tão jovens. Li também que a expectativa de vida média no mundo no final do século XIX era de 37 anos, e que a atual é de cerca de 67 anos. Como as pessoas passaram a viver em média 30 anos a mais em apenas um século? Será que houve mudanças genéticas em nós ao longo da história recente que nos fizeram viver mais? Essas dúvidas me pareciam bem incoerentes.

Não, não houve mudanças genéticas recentes que nos fizeram ter vidas mais longas. As pessoas na época do Império Romano eram capazes de viver tanto tempo quanto as pessoas de hoje; é só conferir a idade a que chegaram poetas, filósofos, artistas ou políticos romanos ou gregos, que morreram de causas naturais, e não por doenças ou assassinatos.

A partir do momento que compreendi que essas estatísticas de expectativa de vida não refletiam uma média da longevidade do ser humano, e sim a média do tempo de vida de uma determinada população, as dúvidas desapareceram.

A evolução dos números nas estatísticas de expectativa de vida deve-se à forma como ela é calculada. Ela considera qualquer tipo de morte, por acidente, assassinato, doenças, guerras, e o mais importante, as mortes dos recém nascidos e crianças, cujas taxas são altas em sociedades pouco desenvolvidas, como as sociedades antigas. Conforme o mundo foi se desenvolvendo, curas para doenças foram criadas e as condições de vida melhoraram, resultando entre outros numa queda acentuada da mortalidade infantil, e assim aumentando a expectativa de vida média quando considerada a partir do momento do nascimento; no entanto as pessoas que conseguem sobreviver às causas de morte não naturais continuam morrendo com idade avançada, como há 2.000 anos.

Depois de toda essa confusão e de descobrir como esta estatística é calculada e o que ela realmente significa, pude adquirir uma mentalidade estatística sobre este assunto. Agora sei que se em um país havia dois habitantes, e um morreu com 99 anos, e o outro apenas com apenas 1 ano de idade, a expectativa de vida média desse país será a simples média aritmética das idades de morte, ou seja, de 50 anos. Essa média tem uma grande diferença para os valores de suas parcelas, e por isso pode-se dizer que é uma estatística com dispersão alta.

Em algumas sociedades pouco desenvolvidas, para evitar que as altas taxas de mortalidade infantil distorçam essas estatísticas, a média de vida é calculada a partir dos 5 anos de idade, ao invés do momento do nascimento. E isso me parece óbvio e correto agora, que entendo como a estatística de vida é calculada. Da próxima vez que eu ver uma média da expectativa de vida, vou questionar se ela é a partir do nascimento ou a partir dos 5 anos de idade.

Nós nos deixamos influenciar por informações numéricas, e não as questionamos, o que nos impede de compreendê-las realmente. Então o mais provável é que sejamos enganados. Assim, é melhor ignorar uma informação que não se entende, do que tentar agir baseado nela.